Soma Saúde Gestão ← Conteúdos
Domínio 6 · Sustentabilidade Financeira

Como ler o DRE de uma Clínica TEA

📅 2026⏱ 10 min de leitura✍ Alexandre Telles

O DRE de uma clínica TEA não é igual ao de uma clínica convencional. A estrutura de custos é diferente, os repasses funcionam de forma específica e a Margem de Contribuição precisa ser interpretada corretamente para que a gestão financeira seja efetiva.

Este artigo apresenta a estrutura completa de um DRE de clínica TEA — linha a linha — com benchmarks reais anonimizados extraídos de operações com múltiplas unidades. O objetivo é que qualquer gestor consiga ler, interpretar e agir sobre os números do seu negócio.

A estrutura do DRE — visão geral

Um DRE de clínica TEA bem estruturado segue esta cascata:

Demonstração do Resultado — Clínica TEA
Receita Bruta+ Receita Total
( – ) PIS / COFINS / ISSImpostos sobre receita
( + ) Crédito PIS/COFINSCompensação tributária
= Receita LíquidaBase real de faturamento
( – ) Repasses (CD)Maior custo — Custos Diretos
( – ) Insumos (CD)Materiais variáveis
= Margem de Contribuição~53–57% da Receita Líquida
( – ) D1 Custo de PessoalCLT + PJs + encargos
( – ) D2 Custo de OcupaçãoAluguel, IPTU, serviços prediais
( – ) D3 Custo ComercialMarketing, comissões, viagens
( – ) D4 Custo AdministrativoTI, jurídico, telefonia, seguros
( – ) D5 Overhead / Rateio G&ACustos corporativos rateados
= EBITDALucro operacional
( – ) Depreciação / AmortizaçãoDesgaste de ativos
= EBITResultado antes de juros e IR
( – / +) Resultado FinanceiroJuros, taxas bancárias
( – ) IRPJ + CSLL~34% sobre lucro tributável
= Lucro LíquidoO que fica com os sócios

A linha mais importante: os Repasses

Nas clínicas TEA, o maior custo direto é o repasse ao profissional — a parte da receita que vai para o terapeuta por sessão realizada. Esse modelo existe em dois formatos principais:

Repasse por sessão (% ou R$)
O profissional recebe um valor fixo ou percentual por cada sessão realizada. Custo variável — sobe com o volume.
PJ / Consultores
Contrato de prestação de serviços com valor mensal. Mais previsível, mas exige atenção ao risco trabalhista conforme volume de horas.
Benchmark: Os repasses representam tipicamente 37–42% da Receita Bruta em operações TEA estruturadas. Se esse percentual estiver acima de 45%, revise a tabela de repasse ou o modelo contratual. Use o Simulador 7 (Ponto de Equilíbrio) para calcular o impacto de diferentes taxas de repasse na margem.

Os 5 Grupos de Despesa Operacional

D1
Custo de Pessoal — o maior grupo fixo

Inclui salários CLT (com 13º, férias, horas extras provisionadas), encargos sociais, PJs de gestão e coordenação, benefícios (VR, VT, plano de saúde) e treinamentos.

D1.1 = Pessoal fixo (CLT) PJs / Consultores = gestores e coordenadores ⚠ Diferente dos Repasses (que são CD)
D2
Custo de Ocupação — impacto varia por modelo imobiliário

Aluguel, IPTU, condomínio, energia, água, manutenção predial, limpeza e segurança. Em clínicas de pequeno porte, pode representar 10–15% da receita. Em modelos de grande escala, cai para 4–6%.

Referência observada: R$ 135.000 a R$ 200.000/mês por unidade de médio porte (Unidade C: R$ 135k, Unidade A: R$ 200k).
D3
Custo Comercial — frequentemente subestimado

Marketing, comissões de parceiros, viagens comerciais, associações e representação. O item "Comissão de Parceiros" costuma aparecer aqui — inclui brokers e intermediadores que captam pacientes individuais.

Comissões de captação de pacientes individuais (via corretores, associações) devem ser monitoradas junto com a sinistralidade. Uma comissão alta combinada com plano de baixo preço = duplo impacto na margem.
D4
Custo Administrativo — o "invisível" da operação

TI, sistemas, softwares, outsourcing de helpdesk, telefonia, internet, jurídico, tarifa bancária e seguros. Normalmente 3–5% da receita em operações bem estruturadas.

Atenção especial para "softwares e hardwares" — em operações TEA, o sistema de gestão, prontuário eletrônico e aplicativo de acompanhamento se concentram aqui.
D5
Overhead / Rateio G&A — entenda o que está sendo rateado

Custos da gestão central (holding, diretoria, RH corporativo, compliance) rateados proporcionalmente entre as unidades. Em grupos multi-unidade, o D5 pode representar 3–5% por unidade. Em clínicas independentes, não existe — mas os custos equivalentes já estão nos outros grupos.

A forma de rateio impacta diretamente o EBITDA por unidade. Uma unidade pode parecer deficitária apenas porque recebe um rateio desproporcional. Audite o critério de rateio antes de decidir fechar uma unidade.

Benchmarks por Linha do DRE

Referências extraídas de operações multi-unidade TEA — valores anonimizados:

Linha do DRE
Bom
Atenção
Crítico
Repasses / Rec. Bruta
≤ 40%
40–45%
> 45%
Margem de Contribuição
≥ 55%
50–55%
< 50%
Custo Pessoal (D1) / Rec. Liq.
≤ 18%
18–25%
> 25%
Custo Ocupação (D2) / Rec. Liq.
≤ 8%
8–12%
> 12%
Custo Comercial (D3) / Rec. Liq.
≤ 5%
5–8%
> 8%
EBITDA
≥ 15%
7–15%
< 7%
Lucro Líquido
≥ 10%
5–10%
< 5%
O que os dados reais mostram: Unidades com EBITDA acima de 15% geralmente têm Margem de Contribuição acima de 55% e custo de ocupação abaixo de 8%. Unidades deficitárias frequentemente apresentam uma combinação de: repasses altos + ocupação elevada + D5 (overhead) desproporcional.

A armadilha do EBITDA multi-unidade

Quando uma rede TEA tem 4 ou 5 unidades, o EBITDA consolidado pode esconder unidades problemáticas. Uma unidade com EBITDA de -1% pode estar sendo sustentada por outra com +16%.

A análise correta é sempre por unidade:

Unidade
Rec. Bruta
EBITDA
Status
Unidade 1 — expansão inicial
R$ 3,6M
7,8%
⚠ Atenção
Unidade 2 — maturidade plena
R$ 4,1M
15,7%
✅ Saudável
Unidade 3 — crescimento acelerado
R$ 2,9M
14,4%
✅ Saudável
Unidade 4 — recém inaugurada
R$ 1,0M
-0,6%
🔴 Deficitária
CONSOLIDADO
R$ 11,6M
11,4%
✅ OK
Lei 21 — Método Soma: "Nenhuma decisão existe isoladamente." A Unidade D pode ser estrategicamente necessária (cobertura geográfica, expansão de rede). Mas o gestor precisa saber que está subsidiando essa unidade com R$ 5–6k/mês de resultado negativo. Sem olhar por unidade, essa decisão nunca é visível.

DRE Fiscal vs DRE Real

Uma prática importante em operações multi-unidade é manter dois DREs paralelos:

DRE Fiscal
Baseado nos valores da nota fiscal e competência contábil. Usado para apuração de IRPJ, CSLL e demonstrações legais. Pode não refletir a realidade operacional no mês.
DRE Real (Gerencial)
Ajustado pela competência real dos serviços. Inclui provisões de 13º, férias e encargos. É o DRE para decisão. Se só existe o fiscal, você está gerindo com atraso.
Lei 37 — Método Soma
"Antes de analisar dados, entenda a decisão que precisa ser tomada."

No DRE: o fiscal serve para o fisco. O gerencial serve para o gestor. Confundir os dois leva a decisões baseadas em números que não correspondem à realidade operacional.


Projeções com IPCA — como planejar

Em operações TEA com contratos de médio prazo (operadoras, planos), é comum projetar receita e custos com reajuste baseado no IPCA. A estrutura correta:

Use o Simulador 9 (Mestre de Viabilidade) para simular cenários com projeção de 24 meses, considerando crescimento de volume e reajuste de custos.

Construa e analise o DRE da sua unidade

Use os simuladores para calcular cada linha do seu resultado operacional

Sim 9 — Viabilidade completa → Sim 7 — Ponto de Equilíbrio → Por que TEA é Caro

Soma Saúde Gestão · alexandre.telles@somasaudeegestao.com.br · 2026