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Domínio 4 · Gestão de Capacidade

Os indicadores que toda clínica TEA precisa monitorar

📅 2026⏱ 8 min de leitura✍ Alexandre Telles

Uma clínica TEA que não monitora seus indicadores toma decisões pela percepção. E percepção em saúde atrasa diagnósticos — tanto dos pacientes quanto da operação. Este artigo apresenta os indicadores essenciais, os valores de referência reais e o que fazer quando cada um sai do alvo.

Os indicadores abaixo são extraídos de operações reais de clínicas TEA em diferentes regiões do Brasil. Os valores refletem médias observadas — não metas teóricas. Use-os como parâmetro de comparação para a sua operação.

Os 5 indicadores fundamentais

ICH Médio (real)
0,9
Meta: 1,5 sess/hora · Gap: 40%
Absenteísmo médio
41%
Variação observada: 29% a 51%
Aproveitamento real
58%
100% − absenteísmo efetivo
NPS
4,8
Satisfação das famílias (0 a 5,0)
SAC (% atend.)
2,8%
Meta: abaixo de 2%
Atenção: absenteísmo real em TEA é muito maior do que o esperado.
A maioria dos simuladores usa 20% como padrão — mas dados reais mostram médias de 40% ou mais, com picos de 51% em meses específicos. Isso reduz a receita efetiva em quase metade do previsto. Configure o parâmetro de absenteísmo nos simuladores com o valor real da sua operação.

ICH — Índice de Consulta por Hora

O ICH mede quantas sessões um profissional realiza por hora de jornada ativa. É o indicador central de produtividade clínica — e é frequentemente subutilizado em clínicas TEA.

EspecialidadeICH Real (médio)MetaStatus
Fonoaudiologia TEA0,91,5⚠️ Abaixo da meta
Psicologia TEA0,91,5⚠️ Abaixo da meta
Terapia Ocupacional TEA0,91,5⚠️ Abaixo da meta

O ICH de 0,9 significa que, por hora de jornada, o profissional realiza 0,9 sessões — ou seja, aproximadamente uma sessão a cada 67 minutos quando o plano terapêutico prevê sessões de 40 ou 50 minutos. O gap vem de janelas entre sessões, atrasos de pacientes, tempo de registro e ausências não confirmadas.

Como investigar e agir sobre ICH baixo:
O ICH baixo raramente tem uma causa única. O caminho correto é analisar antes de agir:
Sobre atendimentos em dupla ou grupo: são modalidades clinicamente válidas e importantes no modelo TEA — mas exigem avaliação rigorosa de compatibilidade entre perfis das crianças. Nunca devem ser utilizados como manobra operacional para cobrir faltas ou melhorar indicadores. A decisão é do núcleo técnico, não da gestão de agenda.
Período sazonal — férias escolares: O ICH tende a cair em períodos de férias, especialmente nas redes onde o atendimento segue o calendário escolar. Para determinados perfis de pacientes, é possível planejar com antecedência atividades terapêuticas adaptadas ao período — como atividades em grupo temáticas, workshops com famílias ou sessões de orientação parental. Isso mantém o vínculo terapêutico e contribui para a sustentabilidade da clínica, que continua pagando os profissionais nesse período. O alinhamento com as famílias e com o núcleo técnico deve ser feito com pelo menos 4 semanas de antecedência.

Absenteísmo — o indicador que mais impacta a receita

Em clínicas TEA, o absenteísmo não é apenas um problema operacional. É um problema financeiro e assistencial. Cada falta representa receita perdida, capacidade ociosa e interrupção do plano terapêutico da criança.

MêsAbsenteísmoAproveitamentoTendência
Janeiro44%56%
Fevereiro45%55%↑ piora
Março51%48%↑ piora (pico)
Abril44%56%↓ melhora
Maio41%60%↓ melhora
Junho32%69%↓ melhora
Julho29%63%≈ estável
Média geral41%58%Tendência de queda com ação

O período de março é crítico em clínicas TEA — coincide com recesso escolar, mudanças de rotina das crianças e menor disponibilidade das famílias. O planejamento de capacidade deve prever esse padrão sazonal.

O que gerou a melhora de março (51%) para julho (29%):
Controle de presença com alinhamento entre recepção e profissionais, contato ativo com responsáveis para identificar causas das faltas, remanejo de pacientes faltosos para duplas, e conscientização da importância da frequência para o desenvolvimento da criança.

Fluxo de entradas e saídas

Entender o que move os pacientes para dentro e para fora da clínica é fundamental para o dimensionamento de capacidade e para identificar gargalos operacionais.

Principais causas de SAÍDA
Motivo%
Faltosos46%
Mudança de horário28%
Altas clínicas7%
Plano cancelado5%
Desistência3%
Migração3%
Principais causas de ENTRADA
Motivo%
Novos inseridos35%
Mudança de horário26%
Reinserção5%
SAC / NIP2%
Liminar2%
Migração2%

Alta em TEA: uma mudança de fase, não um encerramento

Na tabela de saídas, 7% correspondem a altas clínicas. É importante compreender o que significa alta no contexto do TEA — porque é diferente de qualquer outra especialidade.

O Transtorno do Espectro Autista é uma característica do neurodesenvolvimento, não uma doença com cura. Portanto, a alta não é o encerramento definitivo do acompanhamento — é uma mudança de fase. O objetivo das intervenções é garantir autonomia, bem-estar e desenvolvimento de habilidades. Quando a pessoa demonstra estabilidade e independência funcional nessas dimensões, as terapias são reduzidas progressivamente.

As principais características da alta em TEA:

Monitore a taxa de alta como indicador de resultado assistencial — não apenas como redução de volume. Uma clínica com alta taxa de altas consistentes está entregando evolução real. Combine com dados de faixa etária e especialidade para entender quais perfis estão progredindo mais.

O dado mais relevante: 46% das saídas são por faltosos. Isso confirma que o absenteísmo não é apenas um indicador de produtividade — é o principal motor de rotatividade involuntária de pacientes. Em TEA, diferentemente de outras especialidades, quando um paciente falta no dia e horário agendado, não é simples encaixar outro paciente no mesmo slot — a criança precisa ter perfil compatível com aquele profissional, aquela sala e aquele formato. A vaga simplesmente fica ociosa.

Antes de iniciar os serviços: esclareça direitos e deveres.
A maioria das faltas crônicas poderia ser evitada se as regras estivessem claras desde o início. Ao admitir um paciente, é essencial comunicar formalmente:

Para os faltosos já identificados, o caminho correto é o engajamento ativo — não a remoção imediata. Entender o problema da família (logística, trabalho, transporte, condição socioeconômica) e tentar ajustar dentro das possibilidades da clínica. Só quando os ajustes não são viáveis ou quando a recorrência inviabiliza o tratamento é que a transferência de vaga para o backlog deve ser acionada.

Lei 40 — Método Soma
"O sucesso de uma estratégia é limitado pelo nível de engajamento das pessoas responsáveis por executá-la."

No contexto do absenteísmo TEA, isso se aplica às famílias: uma família que não entende a importância da frequência não é negligente — não foi devidamente engajada. O engajamento começa na admissão, não quando a falta já ocorreu.


NIP e SAC — qualidade percebida

Esses dois indicadores medem a insatisfação do paciente/família de formas diferentes:

IndicadorO que medeReferência realMeta
NIP (Notificação de Incidentes)Problemas que geraram registro formal0,18% a 0,60% dos atendimentos< 0,30%
SAC (Serviço de Atendimento)Reclamações recebidas1,6% a 4,2% dos atendimentos< 2%
5 Estrelas / NPSSatisfação ativa das famílias4,75 a 4,86 (em 5,0)> 4,5

Um padrão observado: NIP e SAC tendem a cair quando o absenteísmo cai. Isso porque a principal queixa das famílias em clínicas TEA não é qualidade técnica — é disponibilidade e regularidade. Quando a clínica confirma consultas ativamente, mantém a frequência e comunica mudanças com antecedência, o NPS sobe mesmo sem mudanças na equipe ou na estrutura física.


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